"Os desafios globais do agronegócio", por Marcos Jank (Insper Agro Global)

Crescimento da produtividade, tecnologias tropicais, competição em escala global, produtores motivados e migração interna explicam o indiscutível êxito do agronegócio brasileiro. Sem grandes esforços ou apoio de acordos internacionais de relevância para o setor, em menos de 20 anos quintuplicamos as nossas exportações nesse setor, atingindo US$ 102 bilhões para mais de 200 países.

Mas a moleza acabou. No passado, importadores vinham buscar nossas commodities nos portos brasileiros porque oferecíamos volumes crescentes a preços competitivos. Mas os próximos 20 anos não serão tão fáceis. A guerra hegemônica EUA-China vai ser longa e penosa para o mundo, podendo ajudar ou prejudicar o Brasil em função dos dois elefantes estarem brigando ou dançando.

Nesses tempos turbulentos, tudo indica que a demanda será dirigida pela geopolítica do “comércio administrado”, e não pelas vantagens comparativas à la David Ricardo. Ocorre que a demanda potencial do mundo é praticamente infinita, mas apenas uma pequena parte dela é acessível para as nossas exportações por conta de inúmeras barreiras tarifárias e não-tarifárias - técnicas, sanitárias, burocráticas, etc.

Em um momento que a geopolítica retorna com vigor, nosso primeiro desafio será construir demandas consistentes para nossos produtos. Temos de mapear nossos interesses de curto e longo prazo nas principais macrorregiões do mundo emergente. O holofote de hoje está no Leste e Sudeste da Ásia e no Oriente Médio, regiões que somam 2,6 bilhões de habitantes e 54% das exportações brasileiras no agro. Porém o nosso futuro está depositado no Sul da Ásia (leia-se o subcontinente indiano) e na África - na soma, 3 bilhões de habitantes em rápido crescimento demográfico, mas que hoje respondem por apenas 12% das nossas exportações.

Temos de aprender a lidar com a China, esse nosso casamento inevitável de longo prazo, que demanda um relacionamento estratégico e equilibrado que gere maior diversificação e valor adicionado no comércio. Os chineses já respondem por um terço das nossas exportações do agro, porém altamente concentradas na soja em grãos.

Ao mesmo tempo, com prudência e equidistância, temos de intensificar e dar um novo rumo para as relações com os Estados Unidos, perdidas após duas décadas de desconfianças mútuas. No agro, os EUA são nosso maior concorrente, mas também um dos importadores mais promissores e sofisticados do planeta (mais de US$ 180 bilhões em importações agro, crescendo cerca de 7% ao ano), ao lado da China (US$ 178 bilhões em importações, crescendo cerca de 12% ao ano) e da União Europeia, com crescimento de 4% ao ano. Mas para os EUA exportamos apenas US$ 7 bilhões no agronegócio, quatro vezes menos que a nossa exportação de soja em grão para a China. Há muito por fazer!

Finalmente temos de avançar com o projeto de abertura comercial brasileira, ao mesmo tempo que retomamos as negociações comerciais que ampliariam, mesmo que tardiamente, a nossa integração das cadeias de valor do planeta.

Nosso segundo grande desafio global decorre das ações e repercussões das nossas políticas em três grandes áreas do agro: Saúde, Sanidade e Sustentabilidade, que chamaremos de 3S. Os maiores problemas de saúde e nutrição são a combinação perversa da falta de alimentos (820 milhões passam fome no mundo) com a má nutrição - 2,1 bilhões de pessoas com obesidade e doenças crônicas. Na sanidade vemos a eclosão de graves doenças e o desafio da eficiência do sistema sanitário. Na sustentabilidade os temas mais importantes para o Brasil são uso da terra e de insumos, desmatamento, clima e biodiversidade.

Nas últimas semanas o mundo inteiro comenta as queimadas que estão ocorrendo na região amazônica. Queimadas ilegais nessa época seca do ano não são fato novo e decorrem basicamente de pobreza e da ilegalidade, numa região que abriga imensas florestas e 20 milhões de habitantes com baixa renda e pouco controle. Mas a percepção de quem lê o mundo por meio de redes sociais é que o Brasil perdeu o controle e o maior culpado seria a agricultura moderna, o que é falso. Décadas de esforço de redução de desmatamento, ganhos de produtividade e a vigência de uma das leis florestais mais rigorosas do mundo não impediram a rápida destruição de imagem que está ocorrendo neste momento, com riscos de afetar o comércio e as negociações internacionais do agro.

Ao mesmo tempo, o açúcar é atacado pelos seus danos potenciais à saúde, gerando uma discussão em escala global que propõe de rotulagens a taxações explícitas. A pecuária bovina é apontada entre as principais causadoras das mudanças climáticas, em função do uso da terra e da eructação dos ruminantes. Doenças como gripe aviária e peste suína africana afetaram vastas regiões do hemisfério oriental e da América do Norte, provocando queda de consumo. Críticas ao uso de defensivos, antibióticos e transgênicos tornaram-se lugar-comum nos países mais ricos.

Não cabe neste texto discutir o quanto de verdade, inverdade ou exagero existe em cada exemplo acima. Num mundo digital e profundamente interconectado, o país que ocupa a terceira posição entre os maiores exportadores agrícolas do planeta precisa gerenciar as percepções que se formam sobre a sua pauta exportadora, sejam elas verdadeiras ou não.

No tema da geopolítica dos alimentos é fundamental construir visões estratégicas de longo prazo com base em estudos detalhados e montar uma estrutura de negociação em cada frente relevante.

Quanto à percepção sobre os 3S (Saúde, Sanidade e Sustentabilidade) é necessário contar com bons dados, presença qualificada e uma sólida estratégia de representação e diálogo no exterior.

Esses foram os principais fatores que motivaram a criação do Insper Agro Global, um centro que analisará temas complexos da agenda internacional do agronegócio desenvolvendo estudos estratégicos, debates qualificados, apoio no desenho de políticas e formação de pessoas.

Alguns dizem que o Brasil é o melhor produtor do planeta. Outros dizem que é o mais injustiçado, porque fez muito e pouca gente acredita. Certamente somos mais temidos do que admirados. Mas reputação não é o que achamos de nós mesmos, mas sim o que nossos parceiros e interlocutores pensam da gente, mesmo que altamente influenciados por mídias sociais.

Comparando com outros grandes exportadores, nossa maior falha não está nas políticas e ações de campo, mas sim na nossa incapacidade de se fazer presente no exterior, ouvindo, entendendo e dialogando com nossos clientes e consumidores nas diferentes regiões que atuamos.

O ponto de partida é uma melhor capacidade de coordenação do governo, setor privado, pesquisa e sociedade civil no Brasil. Se antes falávamos em oferta e produtividade, hoje é preciso pensar em demanda dirigida pela geopolítica e pelas múltiplas percepções dos nossos clientes, sejam elas verídicas ou não.

(*) Marcos Sawaya Jank é professor sênior de Agronegócio Global do Insper e titular da Cátedra Luiz de Queiroz da Esalq-USP. 

INSPER LANÇA CENTRO DE AGRONEGÓCIO GLOBAL

O Insper Agro Global analisará os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial e a dinâmica da inserção internacional do Brasil, desenvolvendo estudos estratégicos, desenho de políticas e formação de pessoas.

No dia 19 de agosto, realizamos o evento de lançamento do nosso novo centro de pesquisa e conhecimento, o Insper Agro Global. Vinculado ao Centro de Gestão em Políticas Públicas do Insper, o centro analisará os grandes vetores de transformação do agronegócio mundial e a dinâmica da inserção internacional do Brasil neste contexto, desenvolvendo estudos estratégicos, desenhos de políticas e formação de pessoas. À frente do Insper Agro Global está o professor e pesquisador Marcos Jank, que tem 10 anos de vivência acadêmica e profissional neste tema nos Estados Unidos, Europa e Ásia.

Na abertura do evento, o presidente do Insper, Marcos Lisboa, apresentou um panorama da história do agronegócio no Brasil, retratando desde o período pós-revolução industrial, com as exportações de café e algodão, passando pelos investimentos em tecnologia, com a criação da Embrapa nos anos 70, a abertura comercial nos anos 80, a expansão do crescimento do setor nos anos 90 e 2000 e a relevância da Esalq na formação de profissionais durante essa história.

“A produtividade do setor cresceu, em média, mais de 3% ao ano durante 40 anos. É um número astronômico. Isso apesar dos problemas de logística e de uma estrutura tributária completamente disfuncional que dificulta elaborar a produção”, ressaltou Marcos Lisboa.

O Coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, iniciou sua apresentação abordando as principais conquistas e desafios do agronegócio brasileiro. “O agronegócio representa 20% do PIB, quase metade das exportações e 20% dos empregos. O Brasil tornou-se o 3º maior exportador mundial, atingindo 200 países. Isso nasce da disponibilidade de recursos naturais e avança com a tropicalização da agricultura via tecnologia. Ao mesmo tempo, temos uma série de desafios: vivemos tempos turbulentos, de guerras comerciais e comércio administrado, com o Brasil ausente de acordos comerciais. Precisamos, ainda, trabalhar a eficiência no pós-porteira, a percepção que questiona a sustentabilidade de nossos processos, a internacionalização de associações e empresas, além de elaborar uma visão estratégica de longo prazo”, analisou Marcos Jank.

Na sequência, Jank expôs os principais temas a serem trabalhados pelo Insper Agro Global, divididos em três áreas: Geopolítica e Demanda Global, Trinômio 3S (Sanidade, Saúde e Sustentabilidade) e Rupturas Necessárias em áreas como inovação, infraestrutura e diferenciação das exportações.

Geopolítica e Demanda Global

Mapear as grandes macrorregiões mundiais, lidar com a China e os EUA, analisar os impactos da abertura comercial brasileira no agro e a retomada das negociações comerciais além da União Europeia serão os principais temas abordados nesta área. “Daqui para frente, não existe demanda sem geopolítica. Até aqui, crescemos pelos nossos esforços em tecnologia e migração de pessoas, mas, daqui para frente, a nossa participação no mercado dependerá de saber lidar com um mundo fragmentado por interesses mercantilistas e geopolíticos”, destacou Jank.

Trinômio 3S (Sanidade, Saúde e Sustentabilidade)  

De acordo com Jank, sanidade, saúde e sustentabilidade são três palavras fundamentais para o agronegócio de hoje, diante de um contexto em que se verifica a eclosão de doenças gravíssimas no mundo, como a peste suína africana na China, a necessidade de modernização do sistema sanitário no Brasil, as 820 milhões de pessoas que ainda passam fome ao mesmo tempo em que 2,1 bilhões sofrem com obesidade e doenças crônicas, além das percepções negativas em relação ao desmatamento, uso de terra e utilização de defensivos agropecuários no Brasil.

“Iremos apoiar os esforços de maior internacionalização de setores e empresas, além de promover diálogos sobre uso de terra, sobre onde e como produzir as commodities que o mundo vai precisar com atenção para a redução do desmatamento, desafio esse que não é só do Brasil, mas do planeta”, explicou Jank.

Rupturas Necessárias

Nesta área, o Centro desenvolverá estudos de impacto e desenhará estratégias a respeito de temas como inovação, bioenergia, infraestrutura e maior valor adicionado. “Isso com a intenção de sair da visão de comércio brasileira atual, de exportador agrícola, de supridor, para uma de maior integração internacional com as cadeias produtivas”, destaca Jank.

Em relação à inovação, a transformação se dá com as tecnologias de hoje, como internet das coisas, big data, biotecnologia, nanotecnologia, geotechs, drones e blockchains. “São novos paradigmas que permitem um casamento muito interessante entre economia, administração, agronomia e engenharia, áreas que formam a essência do Insper”, observa Jank, que ainda ressalta a mudança de logística de transporte rodoviário para ferrovias e hidrovias. “Isso vai acontecer nos próximos 10 anos. Essa transformação será extraordinária, pois atingirá a principal região marginal de produção de commodities do mundo, o nosso Centro-Oeste.”

Objetivo e equipe do Centro

“O objetivo do Centro é tornar-se referência nacional e internacional em temas do agronegócio global, no desenvolvimento de estudos estratégicos com densidade analítica e prospectiva, no apoio para o desenho de políticas públicas e privadas e na formação de pessoas, como os gestores públicos e lideranças do setor privado”, explicou o coordenador do Centro. Além de Marcos Jank, a equipe do Insper Agro Global é formada por Bruno Varella Miranda, Sergio Lazzarini, Paulo Furquim, Danny Pimentel Claro, Priscila Borin Claro, Tiago Fischer, Cinthia Cabral da Costa (EMBRAPA), Leandro Gilio (ESALQ/USP) e Marco Guimarães (ESALQ/USP).

Parcerias

O Insper Agro Global trabalhará em parceria com órgãos públicos como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Economia, além de instituições ligadas à pesquisa e inovação agrícola como a Esalq e a Embrapa. “Após esse lançamento, também vamos procurar desenvolver parcerias com entidades de classe, fundações, ONGs e outros centros semelhantes localizados em vários países do mundo”, disse Jank.

Debate

O evento foi finalizado com um debate sobre a dinâmica do agronegócio no mundo e os desafios brasileiros, no qual participaram a senadora Ana Amélia Lemos, o presidente do grupo LIDE e ex-ministro do MDIC, Luiz Fernando Furlan, o professor e ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues, da FGV Agro, e Elizabeth Farina, presidente da Tendências Consultoria e membro da Comissão Externa de Avaliação do Insper.

Fonte: Notícias Agrícolas/Insper