Ipsis Litteris

Formação de patrimônio em um mundo de juros baixos

O contexto brasileiro

O Brasil sempre foi conhecido mundialmente pelos seus juros altos e a elevada inflação. Uma taxa SELIC (taxa básica de juros do país) de 2 dígitos sempre foi o mais comum e a tentativa de diminuí-la durante o governo Dilma fracassou muito rapidamente, resultando em um aumento da inflação quase que imediato.

Olhando um pouco mais longe, colecionamos uma série de planos e moedas diferentes implementados na tentativa de controlar a desvalorização da nossa moeda. Após vários insucessos, o Plano Real em 1994 veio para estabilizar de maneira definitiva a volatilidade do nosso câmbio.

A partir do gráfico acima pode-se observar que a escala do Eixo Y muda significativamente a partir de 1994, sendo impossível avaliar o comportamento da inflação após esse período sem alterar a escala do gráfico. Na maior parte das análises econômicas é preciso realizar ajustes nos períodos anteriores ao plano Real.

A manutenção dessa controlada inflação, desde então, veio se dando através das já comentadas elevadas taxas de juros. Esse fato parecia provar que o país estava condenado, de fato, a ser um lugar à parte no mundo, onde o chamado “custo-Brasil” jamais permitiria uma redução estrutural dos juros.

Inflação e comportamento dos indivíduos

É importante entender que os indivíduos se adaptam, mesmo que em graus diferentes, aos movimentos econômicos. Por mais que indicadores macroeconômicos, variações cambiais, valorizações e desvalorizações na bolsa pareçam distantes da realidade do dia-a-dia da maior parte das pessoas, é inegável a influência desses fatores no comportamento humano.

As gerações que entraram no mercado de trabalho a partir de 94 já encontraram um cenário em que era possível se planejar um pouco mais. Seus pais e avós, entretanto, continuavam se comportando da mesma maneira que como já vinham se comportando em períodos anteriores.

A predileção por investimentos em ativos reais foi uma grande adaptação dos brasileiros ao cenário imprevisível com relação ao valor da moeda. Imóveis, terras, gado e, em alguns momentos, até veículos foram a preferência dos brasileiros quando de se tratava de formação de patrimônio.

Quando havia a intenção de se investir em aplicações financeiras o CDBs de um dos cinco grandes bancos era o mais arrojado que se podia pensar, desde que a rentabilidade oferecida fosse de ao menos 1% ao mês.

Essa conjunção de fatores (o histórico de inflação elevada, um país em plena urbanização, uma democracia e uma nova moeda ainda jovens) levou o povo brasileiro a se tornar imediatista e conservador. Para um brasileiro tradicional, seis meses são considerados longo prazo e 1% ao mês parecia, até pouco tempo atrás, o mínimo retorno aceitável.

A relação entre Juros e Inflação

A inflação é um sintoma. Para atacar essa distorção é preciso atacar o agente causador da desvalorização da moeda.

Dentre as várias escolas de economia e as causas observadas para a inflação, uma delas é um excesso de demanda sobre a capacidade de oferta disponível. Dada a mesma capacidade de produção de um país, se há mais demanda sobre os produtos, o preço desses produtos deve subir para voltarmos ao equilíbrio.

Esse movimento pode ser observado no gráfico abaixo através do deslocamento do ponto de equilíbrio de P1 para P2.

A taxa de Juros, por sua vez, pode ser resumida como o preço do dinheiro. Subir a taxa de juros significa tornar o dinheiro mais caro, por sua vez reduzindo a pressão da Demanda sobre a Oferta, uma das causas do sintoma chamado Inflação.

No gráfico abaixo podemos observar o comportamento do indicador que mede a inflação, o IPCA, em particular nos anos entre 2014 e início de 2016. A aceleração desse índice foi entendida como o resultado de políticas de estímulo ao consumo sem a contrapartida do aumento da capacidade produtiva do país.

Como apresentado anteriormente, a taxa de juros foi elevada para solucionar esse problema e, portanto, frear a demanda. Após passado esse período, o “remédio” foi retirado e voltamos a taxas de juros mais próximas do normal.

Os Juros no contexto Global

O que parece ter passado despercebido pelo nosso povo, talvez muito preocupado em sobreviver a tantas crises políticas e econômicas e sempre muito pouco educado financeiramente, é que o mundo estava mudando.

A tecnologia, as mudanças de hábitos de consumo e as crises financeiras vieram, ao longo dos últimos 10 anos, transformando o mundo em um lugar de baixos juros e de ativos cada vez mais caros. A valorização dos imóveis no começo da década talvez não seja um testemunho da qualidade desse tipo de investimento mas sim uma prova dessa mudança estrutural: um país urbano rumo ao desenvolvimento (ainda que de maneira errante) em um mundo de juros cada vez mais baixos.

Novos ajustes no comportamento do indivíduo

A partir de agora teremos que mudar a nossa visão de longo prazo, de rentabilidade aceitável e de volatilidade, esse último indicador sendo a representação do risco dos investimentos.

Como o rendimento da maior parte dos investimentos financeiros é baseado na taxa de juros (SELIC), o rendimento nominal desses ativos também caiu provocando uma necessidade de adaptação, rápida e significativa, no comportamento dos investidores. Nesse sentido, tenderemos cada dia mais a nos aproximar do comportamento dos mercados desenvolvidos e dos investidores desses países.

Por lá, o número de empresas listadas em bolsa é significativamente maior que no Brasil. Essas empresas se utilizam de um mercado de capitais mais desenvolvido e com mais investidores para implementar seus projetos, gerar empregos, renda.

Do ponto de vista do investidor, a proporção de pessoas que investem em ações é muito maior se comparado aos números brasileiros. Nesse sentido, mesmo as carteiras mais conversadoras apresentam um percentual significativo de ações.

O cenário brasileiro, atípico no mundo, de altos rendimentos e baixa volatilidade, já deixou de existir. Em breve, nosso perfil tradicional de investidor acima descrito também irá desaparecer.

O papel do Planejamento de Patrimônio

O novo cenário de investimentos financeiros é assustador para o investidor que não possui auxílio profissional nas suas decisões. Isso porque a relação risco x retorno, mais próxima do eficiente, dá menos margem para erro do investidor atualmente. Ademais o retorno marginal caiu bastante e a análise de risco precisa ser ainda mais precisa.

Do ponto de vista patrimonial, investir 100% do patrimônio em um negócio próprio ou somente em imóveis, como é comum em nosso país, continua sendo uma decisão equivocada, com muito mais risco do que potencial de retorno. Diversificar e se pautar em apoio profissional nunca foi tão importante quanto agora.

Autor: Lucas Radd