Ipsis Litteris

Agenda Estratégica do Agronegócio Pós-pandemia

Quando se pensa no longo prazo de uma organização obviamente estar-se-á falando de planejamento estratégico desta e, consequentemente como deverá ser a gestão do negócio para que a organização possa atingir os resultados pretendidos na régua do tempo. A humanidade na ordem atual jamais poderia prever eventos como os que ocorreram em 2020, especialmente os ligados à pandemia do novo coronavírus, bem como a instabilidade econômica nos mercados gerada em especial pela baixa nos preços do petróleo em meados do primeiro semestre. Assim, tratar de planejamento estratégico de uma organização quando ocorreram os “3V’s – variáveis variando violentamente” – é um desafio quase que impossível. 
Com o mundo inteiro sendo afetado de maneira profunda, as organizações também precisaram desenvolver o exercício da mudança conjuntural para que se mantivessem ativas no mercado, o que propiciou mudanças inacreditáveis num curto espaço de tempo. 
No agronegócio não foi diferente, já que as cadeias produtivas foram afetadas, havendo interferências em suas atividades diárias, com influência no fluxo de produtos, serviços e comunicações e no fluxo de informações e pagamentos no sentido contrário, conforme afirma o professor Marcos Fava Neves e os demais autores no artigo “A nova agenda estratégica do agronegócio”. 
Tais eventos são gerados pelas influências do macroambiente que pode ser entendido como “um agregado de quatro grandes ambientes: o político/legal (regulatório); o econômico/natural; o sociocultural; e o tecnológico”. 
Numa abordagem do macroambiente do agronegócio temos, por exemplo, as questões políticas/legais (regulatórias), econômicas/naturais, socioculturais e tecnológicas exercendo influência sobre as empresas de insumos, as revendas e distribuidores, as cooperativas, os produtores rurais, as tradings, as agroindústrias e indústrias de biocombustíveis, as indústrias de alimentos, o varejo, o foodservice até chegar ao consumidor final em fluxos de produtos, serviços e comunicações e, em sentido inverso, conforme outrora dito, temos os fluxos de informações e pagamentos. 
Neste sentido, é necessário avançar além da análise dos quatro grandes ambientes, ou seja, é necessário observar as transformações em curso na área de alimentos, agronegócios e bioenergia num cenário pós-pandemia e como planejar uma nova trajetória de negócios que contemple o momento de crise. 
Como resultado de uma visão multidisciplinar, o professor Marcos Fava Neves aborda as questões relevantes em cada um dos quatro ambientes, sendo que no ambiente sociocultural identifica que há uma constante observação dos movimentos do consumidor, ou seja, procura-se descobrir com qual enfoque o mercado consumerista passa a olhar para a cadeia produtiva e, de forma mais relevante, chama a atenção a preocupação atual do consumidor com matérias relacionadas ao consumo consciente, economia circular, inclusão e inovação social, certificação de origem e rastreabilidade, produção e negócios artesanais, sustentabilidade, mercado online, etc. 
Já no ambiente econômico e natural, os pontos de maior atenção dizem respeito aos acordos comerciais, ao comportamento e oscilação das taxas de câmbio, juros e inflação, na busca por soluções para desigualdade, no crescimento das cadeias baseadas em bioeconomia (biomassa, bioplástico, biocombustível e bioeletricidade), nos novos tipos de seguro e ferramentas de gerenciamento de riscos; na volatilidade dos preços mundiais de alimentos, fortalecimento da ponte alimentar: das Américas (produção de alimentos) à Ásia (consumo de alimentos), novas formas de protecionismo, dívida pública (governamental), desastres naturais, pragas e doenças, efeitos das mudanças climáticas nas áreas produtoras, possibilidades de escassez de água, inundações e eventos climáticos, etc.
No que diz respeito ao ambiente político-legal (regulatório), nomina-se como principais fatores a serem observados as intervenções e regulações governamentais, legislação trabalhista, ambiental e tributária, programas de incentivos e investimentos, leis de certificação, governos utilizando métodos “online” com maior intensidade, requisitos de rotulagem e rastreabilidade dos produtos, proteção de dados e informações, restrições à liberdade e movimentos individuais, embargo a alguns produtos devido à escassez de atividade agrícola, problemas de estabilidade e crise política, regulações para poluição e uso de alguns materiais (plástico e outros tipos). 
E, por fim, no ambiente tecnológico, lista-se o aumento da geração, propriedade e uso de dados, aumento do fluxo de informações, transparência, rastreabilidade e preservação da identidade, aumento dos níveis de segurança (dados, qualidade, garantia e zero contaminação), uso de ferramentas com o consumidor, desenvolvimento da propriedade intelectual, aumento do número de startups atuantes nas cadeias, maior amplitude de tablets/smartphones e seus serviços, aumento no uso da inteligência artificial, tecnologias permitindo inovações, tecnologia aeroespacial, nanotecnologia e outros, tecnologia e agricultura urbanas, agricultura regenerativa, aceleração da P&D e robótica, etc.
Como forma de aproveitar os dados listados em cada ambiente, Marcos Fava Neves sugere a utilização da Matriz FIA (Fatos, Impactos e Atos). Isso quer dizer que as organizações poderão utilizar os “fatos” listados em cada ambiente e, com base em uma análise mais profunda, identificar quais impactos serão gerados por cada fato e, por fim, listar as oportunidades e/ou desafios que a organização lidará. É um exercício que permite à organização implementar os atos para geração de mudanças positivas. 
Vale lembrar algumas palavras que trouxeram ou lembram mudanças que a sociedade atual vivenciou e continua vivenciando durante a pandemia, sendo elas:
 
      1. Digital: a rápida e definitiva evolução/consolidação para o modelo “online”;
      2. Casa: o home office e os aprendizados, mudança de modelos estruturais das organizações;
      3. Simplicidade: reflexão sobre o que de fato é necessário e alerta sobre consumo consciente;
      4. Engajamento: maior envolvimento nas causas sociais;
      5. Neocoletivismo: fortalecimento de um novo comportamento pró-coletivo;
      6. Neonacionalismo: maior valorização do mercado consumerista pelos produtos locais/nacionais;
      7. Infotoxicação: excesso volume de informação x nível de tolerância quanto;
      8. Monitoramento: maior controle, menor privacidade em prol de transparência e necessidade de saúde;
      9. Sanidade: manutenção de boa parte dos novos hábitos adquiridos durante a pandemia no que diz respeito à higiene, limpeza e contaminação;
      10. Natureza: foco e maior valorização na natureza e meio ambiente.
 
Nem todas as palavras afetarão a todos ou a um indivíduo isoladamente e, ainda não se sabe por quanto tempo essas palavras poderão continuar a causar efeitos. 
Assim, o planejamento estratégico continua a ser determinante em qualquer negócio, não sendo, portanto, diferente no agronegócio que representa por vezes uma complexidade superior a outros ramos, gerado, prioritariamente pelos diversos componentes da cadeia produtiva e elos entre estes e o que é produzido.
A noção de macroambientes e como eles atuam nas cadeias produtivas é perfeitamente aplicável, sendo que a Matriz FIA (Fatos, Impactos e Atos) também se mostra adequada a tratar as questões insertas em cada ambiente, tendo o condão, desde que bem conduzida, de gerar uma nova, crítica, inteligente e competitiva agenda estratégica para o agronegócio.
 
Por Pauliane Oliveira.